Convite para o Bloco da Mentira

Caros Zagaiatos, Colaboradores e Simpatizantes

Gostaríamos de convidá-los(as) para participar do Cordão da Mentira no da 1 de abril.

O Cordão da Mentira reúne músicos de diversas agremiações de samba de São Paulo (Camisa Verde e Branco, Projeto Nosso Samba, etc…), assim como integrantes de diversos coletivos culturais e políticos como o coletivo Zagaia, o Coletivo Político Quem, o Coletivo Comboio, o grupo de teatro Folias, Grupo de teatro Kiwi e o Ocupa Sampa. É um bloco de intervenção estética que discutirá, de um modo bem humorado e radical, temas cruciais para uma real transformação da sociedade brasileira. Nosso primeiro tema será “Vai acabar a ditadura civil militar?”

No processo de construção de nosso enredo, samba e alas, discutiremos alguns pontos que nos parecem importantes e permanentes em relação à ditadura militar:

- Ditadura civil-militar – quais empresas financiaram a tortura no Brasil?

- Os porquês da impunidade contra os torturadores na contramão da América Latina.

- O que persiste da ditadura na cultura? Como se encaixam nisso os meios de comunicação?

- A persistência dos esquemas de tortura policiais herdados dos anos de chumbo junto à população mais pobre, assim como a militarização do Estado.

Nosso desfile acontecerá no domingo, 1 de abril, dia da mentira e do golpe civil-militar de 64. A concentração acontecerá no Cemitério da Consolação (entrada da Avenida da Consolação, às 14 horas). As cores do nosso pavilhão serão vermelho e preto. O bloco ensaiará 6 músicas, sendo três composições feitas especialmente para o bloco e três retiradas do repertório popular do samba tratando do tema (como por exemplo “Se manda mané” do Padeirinho da Mangueira).

O primeiro ensaio acontecerá no sábado, 10 de março às 14 horas em local à confirmar.

Dúvidas, questões e propostas são bem-vindas.

Saudações de luta,

Cordão da Mentira

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Se Palmares não vive mais…

Marcha Contra o Racismo e Ocupação do Shopping Higienópolis em São Paulo. 11 de fevereiro de 2012.

As imagens do movimento contra o racismo no Shopping Higienópolis se alastraram pela internet durante estes dias. Os policiais contavam 100 pessoas, algo que contraria a força das imagens. Estimativa reduzida pelo cálculo sobreposto dos interesses ou pela notória ausência de inteligência policial?

“Noves fora”, há um sabor de sucesso neste protesto.

O caráter pacífico do enfrentamento de 300 negros, negras e simpatizantes contra as mazelas do preconceito em marcha, num bairro nomeado pela higienização, contrapôs-se fortemente ao comportamento dos frequentadores do shopping. Havia um certo ar de terror e espanto, como se marcianos invadissem a terra prometida.

Pois é… Não há corpo que aguente sua moradia queimada, invadida, destruída sem direito sequer aos despejos. Não há corpo que suporte exigências irracionais de valores nada democráticos, que apenas aceitam o espaço ocupado por um determinado tipo de indivíduo, num determinado horário, num determinado lugar. Tudo muda quando os corpos circulam e, sobretudo, quando passam a ocupar o lugar do outro. A revolta, lembrava Marcuse, é biológica!

Neste sentido, lembrar Palmares no Shopping foi absolutamente genial! O contrassenso mostrou sua cara neste ato. Se há algo que não se compra no Shopping é a história  que não é contada. Por isso, as primeiras fronteiras fechadas na velocidade de um raio, como um castelo diante dos bárbaros, foram as portas das lojas. Protejam as mercadorias como as virtudes das donzelas! Por infortúnio, há quem pense até agora que o povo que estava lá tinha a intenção do roubo.

Roubaram a cena. O Shopping não é mais um lugar seguro, onde a circulação do capital gera sua miséria.

Mas sucesso? O protesto não gerou diálogo imediatamente. E ali não era o lugar disso… Os 300 geraram desconforto, mal-estar desta civilização que vende a democracia dos cassetetes e dos muros. Ora, cassetetes estão aí para a resistência, assim como os muros para serem saltados.

E quantos muros precisam ser rompidos… Derrubar o fascismo que existe em nós, sermos alvos de nós mesmos, permite ver que o preconceito ocupa os poros sociais. Não há bandidos ou mocinhos, lógica yanque de narrativa reduzida pelo maniqueísmo. Há sofrimento social, muito, acumulado durante os séculos nas várias Palmares, cujo canto está no lamento superlotado do presídio, no corpo das mulheres, no desejo homossexual e num “Pinheirinho” em ruínas.

Coletivo Zagaia

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Guerra e Paz

 

Certos eventos que parecem mínimos no primeiro lance podem tomar proporções monstruosas em um contexto maior. Algo que Walter Benjamin chamou de “constelações”, força motriz de uma imaginação dialética que instaura a crítica no interior de fragmentos. O exercício benjaminiano procurou demonstrar através de eventos isolados – como a poesia de Baudelaire, a reformulação urbana de Paris do século XIX, a fotografia e o advento do cinema, as vitrines da moda, as figuras boêmias da cidade-luz – uma espécie de efeito comum que organiza a vida moderna no interior de um tempo confuso como era aquele período entre-guerras que levou à ascensão do nazismo e ao suicídio deste autor.

A exposição de “Guerra e Paz”– o painel de Cândido Portinari originalmente exposto na sede da ONU – está no Memorial da América Latina. Este evento pode ser pensado como uma das pontas desta constelação… Na outra ponta, as declarações diplomáticas do governo brasileiro em busca de seu lugar (merecido, aliás, como a qualquer outro país) no Conselho de Segurança da ONU; De outro lado, o ovo da serpente que aos poucos vem se retratando no Brasil como um país militarizado, com forças de elite aptas a qualquer missão, executando (sumariamente) as ordens da justiça, o menos democrático dos poderes. Ao lado de tudo isso, declarações de partidos socialistas a favor da greve militar, custe o que custar; e um partido dos trabalhadores pronto para desengavetar de sua Casa Civil, uma luta contra o direito de greve.

Perdoem a confusão dos fatos, a sua apresentação fragmentada, mas esta parece ser a única forma de apreender os desvios em terra brasilis. Entretanto, no interior desta constelação, o destaque para Guerra e Paz pode iluminar algumas tendências que se tece no interior deste turbilhão.

O painel já nasce com controvérsias: por trás de sua narrativa imagética grandiloquente, existe a história do pintor, impedido de ver sua própria obra inaugurada no pavilhão da ONU. Considerado comunista, Portinari foi impedido pela política macarthista de entrar em solo estadunidense. E o criador jamais viu sua obra casada com a arquitetura de Niemeyer. Mais do que os tempos remotos da Guerra Fria, o fato mostra bem o limite da ONU, impotente para defender o artista diante da prepotência americana em dizer quem são os bandidos e quem são os mocinhos.

Guerra e Paz, PortinariQuanto ao quadro, em si, já merece uma discussão à parte: não são painéis separados. Embora o artista tenha contrastado com as cores e a presença dos corpos (humanos e animais), há uma dialética que subjaz: natureza e cultura estão dispostas diversamente em dois conjuntos de imagens que se voltam ora para os desígnios eróticos e pacíficos, ora para os desígnios tanatológicos e guerreiros.

Por trás dos painéis, há um espelhamento de imagens: em Guerra, os corpos da população em súplica são controlados e empurrados para os cantos pela natureza dominada e transformada em máquinas de guerra, como os cavaleiros e as bestas; em Paz, os corpos estão espalhados, colocando a relação da natureza na forma do brincar (nas rodas, cantos, jogos infantis) – e mesmo o trabalho está figurado exclusivamente no mundo rural, ressaltando os modos eróticos (sem as despesas da dominação sado-masoquista) da relação do homem com o mundo.

Seria esta dialética que Guerra e Paz ilumina uma constelação na atualidade. A obra de Portinari, presente do governo brasileiro à recente sede das Nações Unidas – marco de uma nova política no mundo Pós-Guerra – não é um contraste apenas de suas imagens. Nos salões da América Latina, e sob a “constelação” de fatos que rondam nossa atualidade, os painéis saltam seu contexto pictórico e assumem a forma de esfinge nacional. O gigantismo da obra assume a figura que questiona sobre as encruzilhadas que temos assumido entre a guerra e a paz. Uma dialética do olhar que faz ver melhor as dicotomias que atravessamos neste início de ano…

Seríamos de fato o Brasil da paz que vendemos para exportação ou, como o ovo da serpente, incubamos uma nova forma militar do terror que assombra a paz dos cemitérios? Vale tudo para sentarmos no Conselho de Segurança da ONU – inclusive ressuscitar programas nucleares? E a esquerda: deve cair na busca insana de não medir seus aliados, apoiando militares e grandes corporações em busca de uma paz que silencia despejos, mediante táticas de guerrilha nada distantes entre PCCs e PMs? Haveria outra forma de esquerda que ultrapassasse o seqüestro dos afetos pelo caos imaginário do medo? Seria esta a verdadeira estratégia da revolução? Talvez saltos sejam necessários, saltos de tigre como os que Benjamin acompanhava atentamente olhando o céu de suas constelações.

Silvio Carneiro

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Clip Kong – uma continuação da velha história da bela e a fera

“No confronto entre a bela e a fera, Serena aplica ‘pneu’ sobre Hantuchova e avança. Irmã mais nova das Williams vence com facilidade e chega às quartas. Serena se esforça contra Hantuchova. Desta vez, a fera levou a melhor sobre a bela.”

Alexandre Cossenza, direto de Nova York, para o globoesport.com – Tênis 

E deu-se uma facebookeana polêmica, decerto permeada por uma boa dose de hipocrisia por parte de alguns manifestantes, por causa deste videoclip:

Bem… vamos lá! Assisti o clip Kong e, após breve reflexão, o papo reto é: o clip Kong traz uma imagem que povoa o nosso inconsciente coletivo. No imaginário dos negros e dos brancos e dos não negros e dos não brancos de nossa racista e hipócrita sociedade a imagem veiculada no clip está presente. Mas, obviamente assim explicitada, choca e incomoda. Um incômodo que varia em sua gama e significado a depender da pertença do incomodado.

Resta saber qual foi a intenção do Sr Pires. É difícil crer, mas pode ser que tenha sido intencional; que o rapaz tenha objetivado “brincar” com aquilo que povoa as mentes de todos nós indivíduos desta sociedade, independente do que isso provoque em cada um ou em grupos…

Uma hipótese que me ocorreu é a da possibilidade de que o Sr. Pires (bem como o tal, para mim desconhecido, Mr. Catra e o garoto Neymar) tenha pensado: “Já que no imaginário de nossa racista e hipócrita sociedade os negros portam-se como macacos; são lascivas feras e babam pelas belas brancas, loiras e etecetera e tal, vou causar, provocar polêmica e discussão!” Parece que não é o caso. Ninguém vai concordar, não é mesmo?

Em tempo, lembro-me que em algum momento bem no início da brilhante e ainda breve carreira Neymar, diante de uma situação veiculada na imprensa e da qual não me lembro direito o teor, disse não ser negro.  Será que agora já se assume?

Mas interessante, entendo, é a discussão, o debate. Pois, por horrível que seja trata-se de algo que portamos; está em nosso íntimo. Por isso mesmo incomoda muito e aí apontamos, dedo em riste, o outro.  Não que o outro não seja, mas… Sempre é o outro!

Por experiência própria e por observação de situações envolvendo a terceiros é que afirmo que independente de inserção e ou ascensão à este ou àquele círculo, a princípio, ao ser percebido, o negro em “imaculado” recinto, causa estranhamento e/ou constrangimento e posteriormente (de brevíssimo instante a diversificado período de tempo mais longo) o tratamento dispensado vai se “normalizando”.

Entendo que o Alexandre Pires, o Mr. Catra, o Neymar podem e talvez devessem sim dar explicações e, mais que isso, serem convidados a discutir a questão e entenderem que determinadas ações/atitudes vindas de celebridades negras dificultam a construção de um estado de coisas progressista em relação à questão do negro.

É necessário discutir discriminação, preconceito, racismo a fundo, num fórum mais abrangente. E para tal é preciso que muita gente saia da zona de conforto. Ou seja, deixar a cômoda atitude de apontar os males dos/nos outros e mirar o indicador, inclusive, para si mesmo – imprescindível para, senão zerar, diminuir contundentemente tais sentimentos e práticas.

Por exemplo, entre o criouléu sambista, no meio da rapaziada das batucadas das quebradas (majoritariamente negra) costuma-se fazer uso da expressão “pegada de macaco” ou “pegada de macaco grande” ou “pegada de gorila” para afirmar uma atitude mais visceral presente em seu fazer sambístico trilhado sonoramente pelo batuquejê; pelo calundu, batucada pesada, samba duro e diferente daquela atitude que permeia o fazer sambeiro da gente oriunda dos segmentos obesos da sociedade, das classes sociais  mérdias e ditas superiores (dos que com elas se identificam) que vêm se apropriando da cultura popular. E pela qual é visto sim, muito parcimoniosamente, como primitivo – primata.

Em meio à muita gente (não negra) que diz gostar e amar o samba, creio, muito pouca é a parte capaz de gostar e amar verdadeiramente o negro. Parte disfarça o racismo e a intolerância, mas frequenta as casas de espetáculos (de samba) que são em si filtros sociais – para ficar neste universo.

Segundo o professor Milton Santos, explanando sobre a questão do negro, em nossa racista sociedade o negro é cidadão de segunda categoria – consequentemente um não-cidadão. E para melhor discorrer sobre suas reflexões a respeito o fez a partir da seguinte tríade: corporeidade, individualidade e cidadania. A corporeidade referenda dados objetivos, ainda que possa ser interpretada subjetivamente. A individualidade é composta de dados subjetivos, ainda que possa ser objetivamente discutida. Numa sociedade de verdadeira cidadania, cada um é o igual de quaisquer e todos os outros. E a força do indivíduo, seja ele quem for, é obrigatoriamente igual à força do Estado ou de qualquer outra forma de poder. A cidadania é definida teoricamente por franquias políticas das quais se pode efetivamente dispor o cidadão. A cidadania está acima e além da corporeidade e da individualidade, o que não ocorre na prática brasileira em que ela se exerce em função da posição relativa de cada um na esfera social.

Daí que não importa o que um negro faça da sua individualidade (seja genial ou boçal), uma vez que ela é portada pelo invólucro que é a sua corporeidade, negra, na qual se apresenta para o convívio em uma sociedade que a vê como pertença de gente de categoria inferior – hominídeo; primata. E quando se trata de alguém que conseguiu alguma ascensão (seja econômica, política, cultural, etc.) passa a ser tratado com menor intolerância (cuja intensidade varia de acordo com o grau da ascensão) e se for “engraçado” e/ou se prestar a esse papel passa a gozar de “grande prestígio” e passa a ser imprescindível nos encontros festivos  - um amigo de estimação, se é que me faço entender.

Ou seja, numa sociedade racista e segregacionista o corpo – a corporeidade – é um importante e crucial elemento de distinção. Então, a corporeidade – o corpo – do de categoria inferior; do subumano – negro – é de macaco. Daí…

Por Selito SD

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O palhaço e a mulher gorila. Cinema brasileiro e a expropriação do circo

O fascínio circense é uma constante na história do cinema nacional. Do clássico “O profeta da fome” de Maurice Capovilla a “Betão Roncaferro” de Amácio Mazzaropi, de “Bye Bye Brasil” de Cacá Diegues a “Gargalhada Final” de Xavier de Oliveira.  O circo foi desde sempre em nossas telas a manifestação de uma cultura popular nômade e libertária em meio à pobreza e adversidade. Mas de uns anos para cá o sinal parece invertido. Ao assistir dois filmes de produção recente que se inspiram neste universo, têm-se a impressão de que o circo deslocou-se de lugar. Perdeu seu espírito popular, domesticado por uma outra forma de perceber e estar no mundo. Este deslocamento torna-se mais sintomático se pensarmos que os dois filmes citados representam lugares diametralmente opostos no cinema nacional: “O palhaço” de Selton Mello é um filme comercial, estilo globo-chanchada, visando grandes públicos. “A Fuga da Mulher-Gorila” de Felipe Bragança e Marina Meliande é um representante do que se convencionou chamar por parte da crítica como novíssimo cinema brasileiro, feito com poucos recursos, circulando principalmente em festivais e salas “especiais”.

A princípio, estes filmes nada têm em comum. Parece um desvario crítico colocá-los juntos em uma reflexão. Mas, ao menos em um sentido, eles se aproximam diretamente: no abandono da sensibilidade popular, numa espécie de expropriação simbólica de um universo até então relegado aos “deserdados da terra”. Sejamos justos, eles não estão sozinhos. Assim como faz com o samba, uma parcela da elite nacional procura de todas as maneiras apropriar-se deste legado. Multiplicam-se os circo-escolas, os teatros circenses e os pastiches de Soleil. Os palhaços são substituídos pelos “clowns”, mais “sofisticados” e palatáveis. O ilusionismo é substituído pela pirotecnia. A magia pela nostalgia.

Singularidades de uma mulher gorila

Comecemos pela “Fuga da mulher gorila”, onde esta inflexão é mais óbvia. O filme mostra duas atrizes itinerantes viajando pela estrada em uma Kombi, apresentando o espetáculo (tipicamente circense) da mulher gorila. Ao longo do filme descobrimos que uma delas abandonou o filho, escolhendo a vida nômade de artista. O mesmo drama de tantos circenses, mas agora com outro corpo, outra voz, outro sentido. O estranhamento maior está justamente na irrealidade daquelas duas meninas, típicas de uma classe-média urbana pretensamente “libertária”, escolherem a vida circense.

Lógico que podemos argumentar que o filme é metafórico, que não se trata do real, mas de uma representação. Mas ao retirarmos do circo a corporalidade e a visceralidade do artista popular, resta-nos o pastiche da experiência a partir de corpos deslocados naquele universo. A escolha do filme em procurar uma manifestação particular de expressão através da fala-canto das atrizes-personagens aumenta esta sensação, pois a matriz desta fala está na experiência da classe-média carioca, a bossa-nova zona sul eclodindo sensorialmente aos ouvidos.

Lembremos que o circo no Brasil sempre foi um lugar privilegiado de criação musical. Ao substituir a matriz das manifestações musicais circenses (no Brasil profundamente ligadas à cultura popular) por outra, de origem elitizada, é realizada uma escolha político-estética privilegiando a experiência de um grupo social determinado. Talvez aí o limite da aposta atual da nova crítica na afetividade das idéias, em detrimento de uma efetividade das idéias, que não pode deslocar-se da experiência do mundo real.

É lógico que os autores podem, com legitimidade, defender que estou exigindo deles uma viagem que não a do filme. Não se trata portanto de condenar as escolhas dos autores, mas apenas de constatar que há, conscientemente ou não, uma opção de classe nas suas opções estéticas, que reverberam no corpo, na fala e na forma de manifestar os sentimentos das duas atrizes.

O palhaço pós-moderno

Esta inflexão, apesar de menos clara, também está presente  em “O palhaço” de  Selton Mello. O filme conta a história de Benjamin (Selton Mello), palhaço do Circo Esperança, propriedade de seu pai, o também palhaço Valdemar (Paulo José). Benjamin é um homem em crise existencial, cansado da pobreza do circo e por isso resolve abandoná-lo. Longe dos picadeiros, ele recupera sua identidade, e percebe que não pode viver afastado de sua verdadeira vocação.  

“O Palhaço” aparentemente mergulha no universo circense brasileiro, sua pobreza e as dificuldades do cotidiano. Mas assume uma estética que se exime dos conflitos, em favor de uma leitura alienada do lugar social ocupado por esta atividade. A insistência na ingenuidade dos diversos tipos que aparecem ao longo do filme torna todas as relações anódinas. Os prefeitos das pequenas cidades visitadas são criaturas toscas e simpáticas, as relações de poder são sempre diluídas. A caricatura excessiva e a procura incessante do riso fácil (que nunca chega) fazem com que o filme não aponte nenhum caminho para a experiência limite da pobreza nômade. A morte do circo, assim como sua sobrevida, é simples obra do destino.

A estética publicitária tenta incessantemente substituir com efeitos a falta de eficácia do roteiro e a ausência de envolvimento real com aquele universo. Mas o efeito joga contra o filme: os movimentos de câmera excessivos acabam por prejudicar algumas boas interpretações, como as de Paulo José e Teuda Bara. Os personagens circenses são, de um modo geral, superficiais, com diálogos deslocados e beirando o non-sense, insistindo sempre na caricatura. O curioso é que talvez o momento mais próximo da experiência de um palhaço em ação situa-se em uma cena externa ao circo, quando o veterano ator Jorge Loredo, (que não interpreta um palhaço), conta piadas em uma mesa de bar, em um dos raros momentos engraçados. A impressão final é que a matriz formal do diretor não está no circo, mas na dramaturgia e no humor previsível da televisão.

Segue-se a inaptidão do ator-diretor para interpretar o palhaço. A constituição de um palhaço fofura, apela para o chavão mais do que gasto do clown triste. Selton Mello pesa a mão na criação de seu sonhador patético, um Carlitos fora de época, ignorando a constituição do corpo do palhaço em sua visceralidade e espontaneísmo.

Sejamos honestos: ele não está sozinho no cinema brasileiro. O descompasso entre o corpo popular e suas representações transparece em diversos filmes. Pensemos por exemplo nas diversas ficções sobre o futebol, onde é explícita a artificialidade dos jogadores em ação. O cinema tem uma corporalidade, uma relação física com a experiência social. Ao deslocar um personagem de sua realidade espacial e temporal em busca de um suposto universalismo, criam-se comportamentos e sensibilidades deslocadas.

O palhaço de Selton Mello está muito mais próximo da experiência clownesca dos atuais circo-teatros de classe-média (como Os Parlapatões) do que da tradição circense propriamente dita. É interessante notar, no entanto, a escolha do nome Benjamin, referência à Benjamin de Oliveira, o mais popular palhaço brasileiro do início do século XX. A alusão a este negro forro que fugiu com o circo e tornou-se palhaço, parece no mínimo forçada, dada as características do protagonista do filme.

Mas um mérito tem de ser dado a Selton Mello. Ele cria em “O palhaço” uma nova categoria sociológica. Contrariando todos os relatos de exploração de patrões sobre os circenses na história do circo brasileiro, o dono do circo Esperança é explorado pelos empregados. Surge uma nova representação social, até então (salvo engano) ausente em qualquer filme nacional: o patrão explorado. Este grau máximo de diluição das relações sociais só pode acontecer quando nos abstraímos por completo da realidade retratada, em direção a um suposto universal mítico, recoberto por um manto ideológico da nostalgia em mundo “pós-luta de classes”. Com isso perdemos o que existe de mais essencial no circo, sua matriz popular: se depender do cinema brasileiro contemporâneo o espetáculo não pode parar.  

Por Thiago B. Mendonça

Foto do acervo da pesquisadora Joelma Costa

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O país de André Ristum e o cinema de lugar nenhum

Muitas vezes assistir um filme ruim pode ser instrutivo, como bem lembrava Paulo Emílio. Mas no caso de “Meu país” de André Ristum, será que esta máxima é aplicável? Talvez sim, como sintoma de uma atual indigência estética. Como explicar seus prêmios no Festival de Brasília, assim como o bom acolhimento por parte da crítica? Em parte (acredito) porque o filme articulou pela primeira vez no cinema brasileiro um projeto até então inconfessável, mas que fazia-se presente para grande parte da elite nacional: a aspiração de um Brasil sem brasileiros, de uma nação sem povo. Ou, melhor dizendo, um projeto de povo que de tão calado torna-se invisível e portanto passível de desaparecer na tela.

“Meu país” conta a história de dois irmãos que se reencontram no enterro do pai. Marcos (Rodrigo Santoro) é um capitalista bem sucedido que vive na Itália. Seu irmão Tiago (Cauã Reymond) é um playboy inconsequente, viciado em jogo e no pó. O que seria um encontro rápido acaba estendendo-se quando os dois descobrem a existência de uma irmã (Débora Falabella), portadora de deficiência mental. O médico da irmã convence Marcos de que a única coisa que poderia evitar sua piora seria o carinho familiar. Ele então enfrenta o dilema: voltar aos negócios na Itália ou cuidar da família.

A princípio seria só mais um drama burguês onde o capitalista frio, ao se deparar com os problemas dos irmãos, acaba por humanizar-se. Uma espécie de “Rain Man” sem brilho. Mas o filme vai além disso. A aspiração de humanização do capital constrói um Brasil sem pobres, onde as especulações na bolsa de valores só prejudicam os especuladores e onde uma empresa falida é um drama restrito aos proprietários e acionistas da mesma. No país de Ristum não há perdedores. É um mundo onde ricos só convivem com ricos e a invisibilidade dos serviçais formaliza-se na sua incorporalidade. O projeto do diretor só pode se dar por completo com o desaparecimento de qualquer vestígio de povo. Trata-se de uma higienização simbólica. Seria trágico se não fosse cômico.

A dicotomia central do filme estabelece-se entre Marcos, o homem de negócios, com formação européia e portanto sério, e Tiago, o playboy fanfarrão, infantil e descontrolado como a nação tupiniquim que o criou. A obra possibilita portanto a reconciliação da elite colonial com a matriz europeia, a partir de uma política dos afetos (para usar uma expressão da moda na crítica brasileira contemporânea). Central para isso é o aparecimento da irmã doente, a mulher-menina que precisa de cuidados. A defesa da família e de seu patrimônio acaba por unir os três irmãos neste desterro de Ristum chamado Brasil. Os filmes de máfia costumam ser mais convincentes.

As inconsistências dramáticas estão presentes ao longo de toda a estrutura. É notável a forçação de barra na construção do personagem de Cauãn Reimond como jogador viciado. Não há no filme qualquer esforço para construir o universo do jogo como algo sedutor. O que vemos é o personagem cumprindo a função dramática de perder dinheiro para justificar a continuidade da trama e a construção da superioridade moral do irmão “italiano”. Somam-se novas características à contraposição já apresentada entre o homem de negócios de formação europeia e o playboy fanfarrão. O irmão “italiano” preocupa-se com a família, tem seriedade frente ao patrimônio, não comete excessos. O “brasileiro” é viciado em jogo, drogas, bebe demais, é promíscuo, irresponsável com o patrimônio e avesso às questões familiares. A verdadeira desumanidade não está no capitalista, mas na vida desregrada do jovem bárbaro e infantil, que ao longo do filme será civilizado pelo ambiente doméstico.

A mediação entre estes dois mundos é feita em parte pela esposa italiana de Marcos, uma voz polida e lúcida em meio ao confronto. Ela dá ao drama um toque de “civilidade europeia”. É lógico que a indigência dos diálogos acaba por prejudicar um pouco este projeto. Frases como “sua mala parece um quadro de Pollock” ou “A vida é como o golfe” não ajudam muito. A cena da menina deficiente cantando a música “Exagerado” causa vergonha alheia. Mas nada impede que o projeto civilizador de Ristum e seu mundo branco, bonito e rico avance no imaginário nacional, como bem demonstrou o último festival de Brasília. O conto de fadas do diretor cria um país anódino, sem cor, sem cheiro. Uma espécie de ilha de caras convertida em nação, habitada pela fina flor dos financistas e empresários. As utopias da TFP acabam por encontrar o seu mais fiel retratista.

A conclusão deste novelão globalizado é a defesa dos valores da família e da propriedade perante o capital descontrolado e seus vícios. Na última parte do filme os três filhos assistem um vídeo onde o pai falecido (Paulo José) canta uma música de ninar em italiano. O pai chora enquanto canta e o “comovente” ato acaba por unir os três irmãos.  A canção, em italiano, humaniza definitivamente as relações. O projeto de ascese se completa. Marcos (Santoro) consegue pela primeira vez demonstrar amor e dizer à esposa “Eu te amo”. É um novo homem. Está aberto o caminho para o grand finale: os três irmãos e o mar redentor! Não a praia lotada, barulhenta, popular. Mas a praia deserta, particular, o paraíso tropical das elites. Eis, em resumo, o país de André Ristum.

Por Thiago B. Mendonça

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Aula de democracia, sem cultura da democracia?!?!

Matarazzo e sua pedagogia democrática

“Fui agredido fisicamente durante a manifestação e esse é o limite da democracia, ninguém pode tirar o direito do outro de ir e vir, era apenas isso que eu tentava fazer”

Andréa Matarazzo, Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, 28 de Janeiro de 2012

 

 Desacostumado com o debate e no alto do pedestal, a elite minoritária toma de assalto a voz da maioria. Daí amplificam seu discurso pela mídia que transforma a revolta em imagem da indigência, da intransigência, da ausência de diálogo. Por trás de tudo isso, a sombra do esquecimento. Memória curta, pois apenas em um mês a imagem do desgoverno paulista foi de agressão gratuita, agressão física contra a miséria social que eles próprios administram há muito tempo. E como aprendemos neste episódio, a agressão física é o limite da democracia. Ora, quando a força policial age conforme sua formação, agredindo o cidadão para proteger a cidade, quando o único diálogo é o do porrete, é preciso perguntar: que cultura da democracia é esta, sr. Matar-raso???

 Democracia real??? É preciso lembrar que o real é bem mais do que a moeda? Ou o real é que a democracia é este espaço de polarizações e da velha luta de classes? Como anunciava o governador para a estudantada da USP: aulas de democracia… Não esperava este curso intensivo de férias. Já em janeiro podemos perceber bem o que isso significa: democracia com força policial, com direito a Bispo católico abençoar atrocidades, com direito a socialites indignarem-se com a boca cheia de botox. E assim foi: incêndio (criminoso) na favela do centro, ocupação da Luz (vulgo cracolândia), desocupação de Pinheirinho. Métodos como este aspiram à democracia real, aquela que questiona revoltada os seus principais representantes, burocratas que se afirmam parte da alta cultura, truculentos diante da divergência. D. Clementina já dizia: “Tem muito diplomado que é pior do que selvagem”.

 Estão politizando Pinheirinho? Ora, bolas! Mas isto é político mesmo!!!! Não se trata de mera questão habitacional. O déficit habitacional é o quadro político da desigualdade social em que o Brasil ocupa uma das principais posições. Não adianta o Real econômico sem a democracia real. Crescimento econômico sem distribuição social é pinto! Mas a voz silenciada não se cala. Hoje, Matar-raso, abandonado pelos ratos de seu navio (o Titanic da Arte Contemporânea), o governador-reitor Geraldo e o reitor-governador Rodas, pode ouvir, sentir, e cheirar a massa – pequena, numericamente, mas grandiosa no terrorismo que precisa ser feito.

A cultura da democracia é esta: gritos contra as injustiças, sentidas na pele. Esta aí o conteúdo da aula de democracia real: afastar do campo político todos os intolerantes, toda a brutalidade. Eis uma das lições que a história da América Latina tem nos deixado; eis porque nada mais natural do que a manifestação acontecer no que seria o museu sacrossanto da Arte Contemporânea, como vangloria o secretário.

 Mas a arte não é o lugar do esquecimento, e sim, do desvelamento. Nada significa o sagrado direito de ir e vir, para aqueles que não tem onde morar, para aqueles a quem o futuro foi usurpado. Nada mais justo do que imobilizar os responsáveis por suas injustiças: ir pra onde? Vir de onde? Mover-se como um histérico, surdo em sua fantasia? Nada mais contrário à política do que este triste movimento…

Coletivo Zagaia

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CAMPANHA ALCKMIN POR FAVOR SE MATE!